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Abril/2009 | Edição nº 21
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Opinião Prime

A sensação térmica de um crescimento zero em 2009 pode não ser tão baixa

Crescimento em torno de zero do PIB brasileiro em 2009 é o que estamos prevendo agora. Calibramos permanentemente nossas projeções na medida em que novas informações vão chegando e com base em nossas consultas diretas junto às empresas com as quais temos um intenso relacionamento. Parece feio crescer zero, mas se nos lembrarmos de que 2008 foi um ano excepcional (ninguém vai discordar disso, pelo menos até o terceiro trimestre), a manutenção da atividade média em 2009 naquele patamar seria motivo para soltarmos fogos de artifício. Em outras palavras, em termos médios, se mantivermos o mesmo nível de atividade econômica de 2008, o que parece uma boa coisa, teremos crescimento zero. Então, zero de crescimento, na atual circunstância, até que não é tão mal. Da mesma forma, se o nível de investimentos for igual aquele realizado em 2008, o que seria mais do que uma boa coisa, uma excelente notícia (lamentavelmente improvável), o crescimento do investimento em 2009 também seria zero.

É bem verdade que ninguém pode achar uma boa coisa o aumento da taxa média anual de desemprego, que poderá chegar a 9% vindo de 7,9% em 2008. Mas, caso isto ocorra, será um aumento do desemprego bastante modesto quando comparamos com o que está ocorrendo no resto do mundo. No relativo, o Brasil sofre menos do que a maioria dos países e, mesmo crescendo zero em 2009, seu crescimento, surpreendentemente, estará entre os maiores do mundo. O Brasil acumulou energias, margens e ganhos de produtividade que lhe permitiram fazer um forte ajuste na produção industrial com sequelas proporcionalmente menores na área do emprego. Segundo nossas projeções, para que tenhamos destruição líquida de empregos formais (carteira assinada) no Brasil em 2009, o PIB teria que cair 1,6%.

Outro aspecto importante tem a ver com o fato de que a sociedade brasileira costuma associar crise e recessão à inflação crescente e isso certamente não vai ocorrer desta vez. Muito pelo contrário, a deflação global se estende para a inflação no Brasil e o IPCA de 2009 tem elevadas chances de ficar até mesmo abaixo de 4% (a meta é 4,5%). Nas últimas pesquisas de opinião divulgadas, a população entrevistada acredita que a inflação vá subir. Convenhamos, isto não tem hipótese de ocorrer no curto e médio prazos. O poder de compra será razoavelmente mantido, o que permitirá um crescimento da massa salarial total no Brasil em 2009 em torno de 3,5% com crise e tudo. Temos chances de assistir a estranha convivência de queda na produção industrial de algo próximo de 5% (forte queda das exportações) com aumento do comércio varejista de 3,6%. Do lado empresarial, esta será a primeira crise onde estamos assistindo um mergulho profundo das taxas básicas de juros, cujo efeito nas expectativas empresariais está longe de ser desprezível. Chances gigantes de atingirmos juros básicos de um dígito nos próximos meses.

Em resumo, a situação global ainda está muito feia. O ano de 2009 será essencialmente um período de ajuste estratégico de todos os agentes econômicos e isso vale tanto para empresas como para famílias. Não dá para ser otimista, mas a sensação térmica no Brasil não será semelhante àquela observada em outras várias crises pelas quais o país atravessou. Dá para seguir fazendo planos. Porém, mal começou o ano de 2009 e já nos sentimos obrigados a construir bons cenários para 2010. Este sim, tem boas chances de ser um ano bastante razoável.

Octavio de Barros - Diretor de Pesquisa e Estudos Econômicos do Bradesco
Indicadores

  • InflaçãoOciosidade duradoura da economia impede repasses do câmbio para preços.

  • CâmbioO real só se enfraquece se o mundo piorar muito. Mantemos R$2,20/US$ no final do ano.

  • PIBMundo pisa no freio. Implausível ver Brasil pisando no acelerador.
    De -1% a + 1%, tudo é possível.

  • JurosJuros de um dígito, mais cedo do que esperávamos: primeiro semestre.